As encomendas efetuadas entre 22/12/2022 e 02/01/2023 serão expedidas a partir de 09/01/2023.

A “Dhika” do Rui – Episódio 14

Dezembro 22, 2022

QUASE CONQUISTADOR

| Crónica Desportiva por Rui Alves

 

Vamos recuar a 1989, ao festival da canção da eurovisão, no qual fomos representados pelos Da Vinci e a sua música “Conquistador”. Prontos? “Já fui ao Brasil, Praia e Bissau, Angola…” e ficamos por aí porque ainda não tive a oportunidade de ir a Moçambique, Goa nem Macau. Nunca fui até Timor nem me considero, naturalmente, um conquistador… a não ser de milhas aéreas.

 

A formação de treinadores com a chancela da FIBA tem-me, de facto, proporcionado experiências ímpares em países lusófonos, e não só. O único continente que ainda não tive a oportunidade de visitar foi a Oceania. Cada curso teve as suas particularidades e muitas histórias para contar, mas nesta crónica faço apenas uma espécie de balanço geral de uma das atividades profissionais da minha vida que mais prazer me tem proporcionado.

 

As pessoas que só têm a experiência de viajar em modo férias, e nunca em modo trabalho, normalmente têm dificuldade em distinguir os dois. Um curso de treinadores da FIBA tem a duração de 50 horas, distribuídas por 6 dias consecutivos, sendo o instrutor o único formador… portanto é só fazer as contas. O dia típico começa com sessões práticas durante a manhã e, após a pausa para o almoço, uma sessão teórica em sala e novas sessões práticas durante a tarde no pavilhão. Além dos clinics sobre as habilidades ofensivas e defensivas dos jogadores, das estratégias e gestão dos momentos do jogo, há também aulas de planificação, métodos de ensino, preparação física, preparação psicológica e outros temas úteis à função de treinador. O curso termina com uma avaliação teórica e outra prática, numa lógica de exigência que a FIBA preconiza logo neste nível de formação inicial. Em cada curso, o máximo de candidatos à certificação é de 15 treinadores, estimulando assim a relação entre instrutor e formandos que se pretende que perdure para além do curso. E isso, felizmente, tem acontecido.

 

Devo dizer que me sinto envergonhado por ter alinhado no preconceito dos que me diziam “O quê? Um curso em África? Vais chegar lá e os treinadores passado três dias…”. Acreditem que a soma de atrasos nos cursos de Cabo Verde, Guiné-Bissau e Angola foi inferior a alguns cursos ministrados no nosso país. É de inteira justiça realçar o compromisso e o esforço enorme das federações desses países para que tudo corresse sempre pelo melhor. Claro que as federações são, acima de tudo, pessoas, que foram tantas que não faz sentido nomear individualmente. Na verdade, o maior atraso que alguma vez registei de um formando foi num curso no Cazaquistão (país quase do tamanho de um continente). Quando me informaram que o treinador ia chegar uma hora atrasado ao início do curso eu insurgi-me e questionei: “como é possível eu vir da Europa, de tão longe, e um treinador daqui chegar atrasado?” Ao que me responderam “é que ele está a viajar num comboio há 3 dias e 3 noites e não tinha outra forma de chegar…

 

Continuando a falar de pessoas, é incrível a humildade e a vontade de aprender da generalidade dos treinadores que tive a oportunidade de conhecer… algo cada vez mais raro de ver nos cursos do nosso país. Lá fora, privei com treinadores de topo dos seus países com uma postura exemplar que chega quase a ser desconcertante. A forma como aceitam diferentes visões acerca do jogo, a forma aberta como respeitam as opiniões dos outros, a forma como ajudam os seus colegas menos experientes, o seu empenho em todas as tarefas… uma verdadeira lição.

 

Ainda assim, não podia terminar sem uma referência aos cursos de treinadores no nosso país, que em termos de estrutura e organização nada devem à formação da FIBA. Falo com conhecimento de causa porque tenho o privilégio de colaborar com diferentes graus de formação, o que aliás me tem ajudado a evoluir enquanto treinador, formador e educador.

 

No fundo, enquanto o BASQUETEBOL continuar a ser uma modalidade em que a partilha de conhecimentos é o motor do desenvolvimento, e as pessoas forem o mais importante, nós por cá vamos continuar.

 

 

A “Dhika” do Rui – Episódio 13

Novembro 22, 2022

CHORAR POR PERDER

| Crónica Desportiva por Rui Alves

 

 

À medida que os campeonatos vão avançando os resultados dos jogos parecem ganhar cada vez mais peso.

 

Nos escalões de formação, nas associações distritais com mais equipas, depois dos apuramentos para a ordenação de grupos competitivos começa a “luta” para chegar às fases finais distritais, cada vez mais entendido como o ponto alto da época desportiva. Mas a crónica não é sobre a alegria de ganhar, é antes sobre a tristeza e a frustração de perder. Cada jogador vive e sente a derrota de forma diferente. Diz-se que a nossa satisfação é medida pela diferença do resultado obtido face às expectativas criadas. É aí que deve entrar o treinador ou educador, ajudando cada jogador a definir muito bem os objetivos. Devem ser específicos, mensuráveis, desafiantes, mas alcançáveis, relevantes e circunscritos no tempo. No basquetebol, enquanto jogo desportivo coletivo, acresce ainda a complexidade de conjugar objetivos individuais e coletivos. No fundo, o treinador deve influenciar as expectativas dos jovens que tem sob sua orientação no sentido de os manter motivados e focados.

 

 

No processo formativo, o ideal era que cada jovem tivesse a paciência e a resiliência até atingir resultados a médio-longo prazo. É melhor a Rita ir à fase final de sub-14 no seu distrito ou representar uma seleção nacional no futuro? Ainda que ela tenha pressa em sentir o sucesso, os adultos que a rodeiam deviam fazê-la acreditar mais no processo e menos no produto. O problema é que muitas vezes são os pais, os dirigentes e até os próprios treinadores que sobrevalorizam o resultado de um jogo hoje, de tal forma, que dão o pior exemplo que um adulto pode dar a quem está a formar-se. A Rita perdeu e chora desalmadamente. “Não chores!”, “Levanta a cabeça!”, “Não deixes as adversárias verem essa fraqueza!”. São conselhos quase automáticos. No entanto, o mais importante de tudo é perceber porque é que chora a Rita. Esperava vencer o jogo? Sentiu que cometeu erros que não estava à espera? Sentiu-se incapaz ou incompetente? Sente-se assim por comparação com as suas colegas? Ou com as suas adversárias?

 

Quando choramos as derrotas normalmente somos assolados pela sensação que aquele momento se tornou irrepetível.

 

O jogo acabou. Quem me dera que começasse outra vez e agora é que ia ser… mas o tempo não volta atrás. Se as minhas expectativas para o desempenho, ou o resultado, eram baixas, talvez seja mais fácil de aceitar os factos. Por outro lado, se esperava uma alta performance e as coisas não correram conforme esperava, então a frustração tolda-nos o raciocínio. Mais uma vez, quando falamos em jovens em formação, compete aos adultos dar conforto e ajudar a encontrar explicações. O mais fácil são arranjar desculpas ou remeter responsabilidades para terceiros: “deixa lá Ritinha, jogaste bem, mas estes árbitros foram péssimos”. O mais trabalhoso é analisar o resultado e perceber o que é que a Ritinha tem de trabalhar mais no treino, e as restantes colegas, para ultrapassar determinada lacuna que se evidenciou na competição. Mais uma vez, priorizar o processo face ao resultado. O processo depende das condições criadas pelos dirigentes, das orientações dadas pelos técnicos e do compromisso dos jogadores. O resultado depende de muitos outros fatores, muitos deles incontroláveis.

 

Deixo uma última reflexão para terminar.

 

É que eu nunca vi um jogador a chorar num fim de um treino em que não se aplicou o suficiente, nem quando faltou ao treino para ir assistir a um jogo de futebol. Porque, de facto, assim como um jogo é irrepetível, também um treino é irrepetível. Ainda que tenham todas as justificações do mundo para faltar, esse treino nunca mais volta a acontecer. E o treino é a principal resposta para não precisarmos de chorar derrotas.

 

 

EPISÓDIO 12

Outubro 27, 2022

MAS AFINAL DE QUEM É O JOGO?

| Crónica Desportiva por Rui Alves

A pergunta de partida é a seguinte: de quem é o jogo? A quem pertence o Basquetebol?

 

A resposta mais óbvia é de que o jogo é dos jogadores.

Soa a cliché, mas a verdade é que para jogar os jogadores são os únicos elementos indispensáveis. Já todos vimos jogos sem árbitros, jogos sem treinadores (no 3×3, por exemplo), jogos sem público, mas nunca ninguém viu jogos sem jogadores. No entanto, recentemente têm-se multiplicado exemplos de alguma sobranceria por parte desta classe. No nosso país, assistimos ao desagrado de alguns atletas, nomeadamente em modalidades individuais, por não decidirem acerca do calendário ou local dos estágios das seleções. No basquetebol espanhol, um base de referência deixou este aviso esta semana: “Enquanto jogador tu precisas de alguma liberdade. Não tenho 20 anos, sei como jogar”. E se pegarmos no exemplo da NBA, o que dizer dos jogadores de referência a quem pedem que escolham o treinador e mesmo os colegas de equipa?

O Basquetebol pertence é aos treinadores

 

. Quem é que percebe mais do assunto? Quem o estuda mais do que os outros? Quem se forma para o ensinar e que, obrigatoriamente, tem de se continuar a formar para se manter atualizado? Mas quando ouvimos declarações do tipo “o treinador não deixa o presidente entrar no balneário” ou “O quê? Eu treinador ter que falar com os pais? Nem pensar…” é porque, na minha humilde opinião, alguns limites já foram ultrapassados. O treinador não é o Clube, nem se pode sobrepor a ele.

 

O Basquetebol é dos dirigentes.

Na verdade, a começar na direção da Federação, passando pela direção da Associação Distrital e acabando na direção do Clube, esses são os verdadeiros gestores. Diz-se que o poder está nas mãos de quem controla os recursos, e aí não há dúvida que a bola está nas mãos dos dirigentes. O presidente não precisa saber se, no jogo, vamos defender o bloqueio direto com a estratégia “x” ou “y”. Precisa sim de criar as condições para que a estratégia seja trabalhada, perceber se o jogo foi preparado e interpretar os resultados. É aqui que pode entrar o papel do diretor técnico ou diretor desportivo, um apoio importante se tiver um passado na modalidade, principalmente nos Clubes de hoje em dia que são, cada vez mais, associações de pais. Diz-se que é sempre de desconfiar quando ouvimos um diretor começar com a frase: “bem… eu não percebo bem disto, MAS (…)”.

 

O jogo é dos juízes pois claro.

 

A seguir aos médicos, é quase a classe profissional mais em falta no nosso país. Também com uma espécie de “Ordem” que felizmente os protege e apoia. É um papel muito ingrato, nomeadamente no início da carreira, que depois acaba por levar a três situações: a grande maioria abandona, por motivos vários. Uma minoria é excecionalmente talentosa, resiliente e atinge o topo da carreira em pouco tempo, com o apoio certo. E depois sobram uns quantos que alimentam o sonho de chegar ao topo, mas o seu trajeto é bem mais complicado, seja por falta de apoio, seja por si próprio, normalmente pela sua atitude como se fosse – lá está – o dono do jogo.

Mas alguém duvida que o Basquetebol é dos adeptos?

Quem vai ao pavilhão? Quem patrocina? O exemplo recente de jogar em pandemia foi a prova evidente que não parece fazer sentido jogar sem adeptos… e daí a multiplicarem-se os canais de vídeo dos Clubes foi um passo. É para dar alegrias aos adeptos que todos trabalham. O problema é, mais uma vez, os exageros. O fanatismo e a violência são uma consequência do desporto de massas… felizmente para o Basquetebol ainda são poucos os episódios tristes ou os maus exemplos que os adeptos da nossa modalidade dão.

 

Pensando bem, o jogo é da comunicação social.

 

Não são as transmissões televisivas que, tantas vezes, determinam os calendários e horários dos jogos? Por exemplo, um jogo da ACB – principal Liga Espanhola – pode ser visto num pavilhão, ao vivo, por 5.000 pessoas, mas é transmitido para mais de 150 países, do Burkina Faso ao Yemen, levando o campeonato a milhões de adeptos. E com as TV’s aparecem os comentadores, esses donos do jogo que o escalpelizam, bem como aos seus intervenientes, sem nunca perderem obviamente. Já não podem dizer o mesmo os apostadores, pois esses perdem mais do que ganham, e se um dia forem os donos do Basquetebol então é porque quase tudo correu mal.

 

De facto, o Basquetebol é muito maior do que qualquer um dos seus agentes, intervenientes, colaboradores ou seguidores. Precisamos de todos para um Basquetebol cada vez mais forte, mas que cada um perceba e atue dentro do seu papel.