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A “Dhika” do Rui EP26: A dança dos comentadores

Fevereiro 6, 2024

A dança dos comentadores

 

| Crónica Desportiva por Rui Alves

 

Numa altura em que o basquetebol continua a conquistar cada vez mais adeptos no nosso país, a experiência televisiva torna-se uma parte crucial para os fãs e entusiastas desta modalidade. No entanto, a qualidade da transmissão não está limitada às imagens vibrantes ou às jogadas espetaculares, mas também à narração e comentários que acompanham cada movimento dentro de campo.

 

Os comentadores de basquetebol têm o papel de pintar a narrativa, de transformar uma simples finta ou um drible, em algo fantástico que seja capaz de prender a atenção da audiência. Mais, têm de fazê-lo num difícil equilíbrio entre emoção e objetividade. Quanto à pri-meira, tem de ser na dose certa. Todos reconhecemos que é desproporcionado gritar um “TRIPLOOOO” como se de um golo no futebol se tratasse, pois vão acontecer muitos ao longo da partida… mas também sabemos que aquele triplo nos últimos segundos, aquele triplo que muda a liderança do marcador, aquele terceiro triplo consecutivo, ai esse tem de sair bem de dentro.

 

O desafio da imparcialidade

 

Outro desafio para narradores e comentadores é o da imparcialidade. Acredito que a maioria das vezes nada tem a ver com clubismos. Eu diria que é humano “puxar” pela equipa que é claramente mais fraca, ou festejar mais os feitos da equipa que está a perder com o desejo, subconsciente, do equilíbrio na partida. Também há que contrariar a tendência de, no co-mentário e na crítica, “protegermos” os nossos amigos ou conhecidos, sejam eles jogadores, treinadores ou árbitros. E o contrário também é de evitar, pois ao querermos mostrar distan-ciamento corremos muitas vezes o risco de sermos injustos e penalizadores com quem não o merece.

 

Assim, neste diálogo entre narrador e comentador deve transparecer uma química que tem o papel de elevar a qualidade da transmissão. É, portanto, de evitar atropelos e constantes desentendimentos, ou pontos de vista divergentes, mas antes criar um ambiente agradável onde possam argumentar as suas ideias, de forma respeitadora e fundamentada, segura-mente mais do agrado dos telespectadores. Na verdade, esta atividade é quase uma espécie de dança, em que cada um tenta mostrar o que o outro tem de melhor.

 

É importante pensar no público que está a ouvir no outro lado

 

Ainda sobre as dificuldades e os cuidados que este trabalho requer, é importante que narrador e comentador percebam que tipo de público os vai estar a ouvir no outro lado. Quem acompanha um jogo através de uma plataforma de streaming ou app será tendencialmente alguém mais jovem e com interesse concreto nessa partida, normalmente com mais conhecimentos da modalidade. Já quem acompanha a transmissão num canal televisivo pode ser um apreciador do zapping, alguém que nem as regras básicas seja capaz de dominar. Assim, o sucesso da tarefa obriga a alcançar uma sempre difícil harmonia entre referências às táticas complexas, às regras do jogo, ao desempenho individual notável, às dicas mais elementares, aos momentos decisivos que podem escapar aos olhares mais desatentos ou desconhecedores.

 

 

Temos a sorte de ver o aparecimento de caras novas nos papéis de narrador e comentador que acrescentam qualidade e analisam a partir da sua gama mais ampla de conhecimentos e experiências. Como em muitas outras atividades, talvez falte a inclusão de vozes femininas, não só como afirmação de igualdade, mas também por enriquecer o comentário a partir desse ponto de vista.

 

A regra de ouro é ser positivo.

 

Independentemente de tudo, a regra de ouro para quem narra ou comenta basquetebol é ser positivo. O dramatismo, a negatividade e a crítica acintosa não “vendem” o produto. Estragam o produto. Quem é que se vai interessar em ver um jogo cheio de “falhanços” e “disparates”? Para mais, num jogo desportivo coletivo, em que o ataque de uma equipa se inter-relaciona com a defesa da outra, não é difícil a visão do “copo meio cheio”. Quantas vezes uma perda de bola é consequência de uma grande ação defensiva da equipa adversária… ou um lançamento falhado que acontece por uma exemplar oposição.

 

Para os comentadores que são treinadores, que diga-se, são em grande número, deixo esta analogia que acho interessante. Num destes dias ouvi, num canal de cozinha, um chef a dizer qualquer coisa deste tipo: no restaurante cozinho para as pessoas quererem comer e na televisão tenho de fazer receitas para motivar as pessoas em casa a repeti-las.

 

Estudos sobre o futuro apontam para que os espectadores vão preferir as plataformas de streaming, vão escolher as câmaras durante a transmissão, vão usar a realidade virtual e a realidade aumentada, vão ter acesso a estatísticas avançadas em tempo real e vão usufruir da inteligência artificial para uma experiência de visualização única para cada adepto. Ao nível dos comentários, ou continuamos a melhorar e evoluir, ou arriscamo-nos que o espectador use o comando de nos silenciar, impossibilitando-nos de contribuir para uma experiência que desejamos que transcenda a ação dentro do campo e que permanece na memória de todos os fãs.

 

 

 

 

 

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