EPISÓDIO 2

Queres Ser Treinador de Basquetebol?
Junho 23, 2021

Queres ser treinador de basquetebol?

Durante este verão, 147 treinadores de basquetebol empenham-se para concluir a parte curricular dos seus cursos de treinador de grau 2 e grau 3, reconhecidos pelo Instituto Português de Desporto e Juventude. 59 procuram obter a certificação máxima de âmbito nacional – o grau 3 – distribuídos por duas turmas, uma referente ao ano 2020, cuja componente presencial teve de ser adiada por causa da pandemia, e ainda outra turma, essa referente já ao corrente ano de 2021. Quanto ao grau 2, formar-se-ão 4 turmas que vão ter entre 20 e 25 treinadores cada, número esse elevado também como consequência da interrupção da formação presencial no verão passado.

Não deixo de me pasmar com o interesse crescente pela vontade em ser treinador de basquetebol, pois estes cursos não são de formação inicial, não são experiências a ver se se gosta, são formações onde os candidatos já sabem que querem ser treinadores. Mais, este entusiasmo pelos cursos arrasa a narrativa de que “neste país não vale a pena ser treinador de basquetebol”. Estarão então 147 treinadores enganados? A perder tempo?

Não posso falar deste tema sem uma declaração de interesses inicial, pois o meu envolvimento com a formação de treinadores de basquetebol é elevado, nomeadamente nos cursos de grau 2 e grau 3, e portanto admito que haja uma certa parcialidade, e até algum exagero, que não gostava que fosse visto como vaidade ou como qualquer tipo de adulação. Posto isto, há que dizer, com orgulho, que a formação de treinadores de basquetebol em Portugal tem sido vanguardista em muitos aspetos. À medida que a atividade/profissão de treinador tem sido regulada pelas instituições governamentais, a Escola Nacional de Basquetebol da Federação Portuguesa de Basquetebol tem estado sempre no grupo da frente da implementação das medidas exigidas, muitas vezes pioneira e exemplar para outras federações desportivas nacionais.

Há diferentes modelos de formação de treinadores espalhados por todo o mundo. O modelo de pais-treinadores, que domina parte da América e Oceania, o modelo de certificação do treinador, que é o mais habitual na Europa, o modelo de treinador professor de educação física, muito frequente na América do Sul, e o modelo do treinador “espontâneo” ou ex-jogador, que vai resistindo em alguns países africanos e asiáticos. A verdade é que as ciências do desporto têm evoluído a um ritmo incrível e quem não se atualizar corre o risco de ficar para trás. Mas porque é que o treinador X tem de ter a certificação Y para treinar na Liga Z? Porque há uma aposta clara na qualificação. E essa aposta nem é uma imposição das federações desportivas, vem de cima. Mas o treinador X não pode ser igualmente competente sem ter a certificação Y para treinar na Liga Z? Pode, claro. Mas, se pensa assim, falta-lhe uma das maiores qualidades que um treinador pode ter: humildade para reconhecer que enquanto quiser ensinar, vai ter de continuar a aprender. Assim como um médico ou um professor. Tentou-se caricaturar a situação do piloto português de moto GP – Miguel Oliveira – por não ter a carta de moto para conduzir na rua. No entanto, o próprio teve a iniciativa de obter essa certificação e admitiu mesmo que “as coisas, na minha prática, processam-se de forma completamente diferente do que na condução em estrada”.

Um dos últimos momentos altos na formação de treinadores no nosso país foi um Curso de Coordenadores Técnicos de Clubes promovido por cinco federações em conjunto: Andebol, Basquetebol, Futebol, Patinagem e Voleibol. A iniciativa decorreu no mês de Abril e o interesse suscitado foi tanto que estão previstas reedições da iniciativa no futuro.

E, por falar em futuro, está prestes a ser lançada a certificação de grau 4 para treinadores de basquetebol. Será mais um patamar formativo que se tornará num novo máximo a atingir para quem desempenha o papel de treinador no nosso país.

Resta-me desejar sorte a estes 147 colegas e, a todos os outros, esperar que nos possamos encontrar em breve num Clinic em formato presencial, com a riqueza dos conteúdos aliada àquela boa conversa, de preferência com os pés debaixo da mesa.