EPISÓDIO 7

Olá Sónia!
Janeiro 17, 2022

Olá Sónia!

Olá Sónia, obrigado por estares a ler esta crónica. Não és propriamente tu – Sónia – a quem eu me dirijo, é outra Sónia… que tu nem conheces… mas eu sei que ao leres o teu nome aumentaste o teu estado de alerta e de interesse sobre estas linhas. É normal e explicado pela neurociência. Adoramos ouvir o nosso nome e que nos tratem pelo nome.

Estou a falar da Sónia que, uma vez por semana, me abre a porta, me mede a temperatura e que diz, sempre, “Olá Rui”. Aquele “Rui” que me faz levantar os olhos do telemóvel, ou esquecer o que esteja a fazer, e olhar para essa pessoa de forma bastante diferente do que seria se fosse apenas um “olá” ou um “boa tarde”. Sinto vergonha de ter passado tanto tempo, tantos meses, até lhe conseguir responder “Então Sónia, tudo bem?”. Tenho as desculpas que todos temos… ai eu não sou bom a decorar nomes, ai eu não associo bem as caras com os nomes, ai isto das máscaras nem dá para ver bem a cara da pessoa… Mas a Sónia também podia ser assim, até porque cumprimenta pessoas bem mais conhecidas e importantes do que eu. A verdade é que nos sentimos tão bem ao ouvir o nosso nome, principalmente de pessoas que não julgamos próximas, que temos a obrigação de fazer um esforço para retribuir.

Quem já percorreu um corredor cheio de alunos, em tempo de intervalo, sabe o que é um bombardeio de “bom dia setôr”, ao qual vamos respondendo “bom dia”, ou, às vezes, até só acenando com a cabeça. Inesperadamente, sai um “bom dia setôr Rui” é uma espécie de gatilho que me obriga a olhar o aluno nos olhos e, inconscientemente, abrir um sorriso e dizer “olá bom dia Miguel, tudo bem?”. É certo que esta parte do “tudo bem?” ele já nem ouviu porque ia apressado, mas o efeito que teve em mim foi o mesmo. O nome é a nossa marca e o link para a nossa identidade.

Num ambiente diferente, mas comum a muitos dos que nos lêem aqui, tive uma experiência concreta com a minha equipa de basquetebol, que considero muito interessante, e daí querer partilhá-la. Estávamos prestes a começar um jogo e vi alguns jogadores incrédulos de como o árbitro sabia os nomes de todos, mesmo daqueles que jogavam pouco ou eram menos “conhecidos”. Tinham ido cumprimentar a equipa de arbitragem, o normal antes do jogo iniciar, e estavam absolutamente rendidos por serem “reconhecidos”. Sendo estratégica, ou não, a ação dos juízes ao tratarem pelo nome, cada jogador, nos cumprimentos iniciais, conquistou o respeito, de tal forma, que a empatia durou os 40 minutos e não houve nenhum problema de comunicação naquele jogo.

No âmbito da formação de treinadores, tentamos passar a recomendação de que, em cada treino, cada jogador deve ser elogiado e corrigido, pelo menos uma vez. Mais, que só “conta” se esse feedback for precedido do seu nome. “Sofia, vê a bola quando defendes”, o nome aparece primeiro, para chamar a atenção e para dirigir a correção, pois o treinador ao dizer apenas “Vê a bola quando defendes” a Sofia pode pensar que era feedback para a Maria. “Muito boa defesa Júlio”, o elogio vai saber bem ao Júlio, ainda para mais na frente dos melhores amigos, vai também servir de reforço positivo para ele voltar a defender da mesma forma, e vai ainda servir de exemplo para os restantes colegas, que vão querer ouvir o seu nome, dito pelo treinador, tal como ele fez com o Júlio.

Faz parte de qualquer manual de pedagogia a indicação de que devemos tratar os jogadores, ou os alunos, pelo seu nome, se os quisermos envolver, comprometer e motivar. Em nossa casa, quase “gastamos” os nomes dos nossos filhos, dos nossos pais, cheios de alcunhas mais ou menos carinhosas. Mas, a verdade, é que todos podemos ir um pouco mais além.

Fica então a dica. Experimentem lá no escritório, na escola, ou noutro local que não seja a vossa casa, substituir o estandardizado “Bom dia”, pelo acrescentar do nome, que vai ser um mimo à identidade dos vossos colegas.