EPISÓDIO 5

Lido de Perto com Alunos da Licenciatura em Desporto
Janeiro 17, 2022

Lido de perto com alunos da licenciatura em desporto

O regresso às aulas começou em agosto nos hipermercados, em meados de setembro nas escolas básicas e secundárias e no final do mês nos estabelecimentos de ensino superior. A seguinte reflexão é sobre da realidade destes últimos alunos.

Pelos números conhecidos, são 49.000 novos alunos que chegam ao Ensino Superior no nosso país, carregados de sonhos e expectativas. Estudos recentes indicam que houve uma maior taxa de abandono nestas faixas etárias, alegadamente motivada pela pandemia. Não é de estranhar, pois embora tenha sido no ensino superior a melhor adaptação ao ensino à distância, comparado com outros graus de ensino, também é o ensino mais caro… e na profunda crise que se instalou em tantas famílias, o valor a pagar pelas propinas tornou-se incomportável.

Eu lido de perto com alunos da licenciatura de desporto, nomeadamente lecionando a unidade curricular de Basquetebol, e a cada ano que passa vejo estes alunos mais próximos de uma maturidade típica de ensino secundário e, consequentemente, mais distantes da atitude que me recordo de ter quando tinha as suas idades, enquanto eu próprio aluno universitário. Tenho até um colega que diz, a brincar naturalmente, que não falta muito para fazermos reuniões com encarregados de educação dos alunos do Instituto.

No meu tempo de faculdade, não me lembro de nenhum professor se preocupar em motivar os seus alunos. Aliás, não era sequer necessário. Tínhamos uma sebenta (às vezes), umas fotocópias e uma biblioteca cheia de livros e teses, papel esse que tínhamos de “lamber” até à proporção da nota que queríamos ter. As aulas teóricas eram para os nerds, com exceção daquelas 2 ou 3 antes do exame. Nas aulas práticas estávamos lá todos, a meter as “mãos na massa”. Eram, de facto, outros tempos.

Costumo dizer aos meus alunos do Instituto que, quando eu entrei na minha faculdade, garanti praticamente o meu futuro. Aliás, ainda nem era licenciado, e já era professor de educação física, tamanha era a falta, à época, de professores dessa disciplina no ensino básico e secundário. Digo-lhes que, nesse tempo, a seleção acontecia à entrada. Depois, eram cinco anos (ou mais alguns) de trabalho e havia sempre um emprego à espera, numa escola, num ginásio, numa piscina… Neste aspeto em particular, hoje é o oposto, ou seja, a seleção já não é feita à entrada mas sim à saída. Com tantas escolas, tantos cursos e concorrência tão forte num mercado de trabalho também já saturado, é normal que os empregadores estejam bastante mais sensíveis sobre o percurso académico do que antigamente estavam.

Quando experimentei a minha primeira aula de educação física, enquanto aluno no 5º ano, aos 10 anos de idade, decidi imediatamente “eu um dia quero ser este tipo” (o professor, claro). Lembro-me de uma diretora de turma telefonar para casa dos meus pais, coitada, a dizer que era um desperdício eu seguir desporto. Mas ninguém me demoveu e cumpri esse sonho profissional. Acho que tive sorte, pois conheço hoje alunos com 25 anos de idade, que já estão na segunda licenciatura e ainda não sabem bem o que “querem ser quando forem grandes”.

Aliar a missão do ensino com a paixão do basquetebol é, de facto, de uma grande realização pessoal e um enorme privilégio. Num semestre, há que criar condições para que os alunos ganhem o gosto pela modalidade, experimentem na prática diferentes técnicas e estratégias, conheçam e apliquem as metodologias de ensino e acabem por ser capazes de liderar uma aula ou um treino, selecionando os exercícios e, acima de tudo, providenciando as correções necessárias aos praticantes. Hoje em dia, produz-se tanta informação sobre a nossa modalidade que o mais fácil é ficarmos perdidos… Cabe então ao professor a difícil missão de sistematizar o conhecimento mais atual sobre o basquetebol e ter a habilidade de o transmitir aos seus alunos.

Uma assistente operacional dizia-me no outro dia: “Eu sou do tempo em que vocês professores eram só professores… hoje têm de fazer de tudo na Escola”. É bem verdade, e por ser, temos também de capacitar os futuros professores para missões que vão além de debitar matéria. Bom ano letivo para todos!