EPISÓDIO 4

A Pior Atitude é Daqueles que Pensam que o 3x3 é uma Ameaça
Outubro 29, 2021

A pior atitude é daqueles que pensam que o 3×3 é uma ameaça

Quem se lembra daquele amigo que dizia “Eu? Telemóvel? Nem pensar… continuem a ligar-me  para casa” ou daquele outro “Redes sociais? Naaaa… eu sou de amigos reais e não de amigos virtuais…”. É verdade que há um lado quase heroico na resistência à modernidade e à mudança. A dada altura, muitos de nós invejámos a coragem desses amigos que são contra a corrente, mas o tempo é que acaba sempre por ser o juiz.

Isto vem a propósito da variante 3×3 do basquetebol. Quase sem darmos por isso, passou de mero instrumento didático a modalidade olímpica. Os “puristas” do 5×5, os defensores do jogo formal como a única forma exequível de praticar a nossa modalidade, esses já estão ultrapassados e resta-lhes agora correr atrás do prejuízo, se quiserem.

O 3×3 surge como reflexo da espontaneidade da prática informal, em campos na rua. Primeiro, é mais fácil arranjar 5 amigos para jogar do que 9. Segundo, uma bola a distribuir por 3 dá-nos mais oportunidade de contactos com ela do que se formos 5 a jogar. Terceiro, não são cá precisos treinadores ou árbitros, era um jogo dos jogadores e ponto. Talvez tenha sido este último aspeto o responsável pelo distanciamento que se foi sentindo entre a prática do 5×5 e do 3×3.

No entanto, à medida que foi acontecendo a massificação do 3×3 por esse mundo fora, as organizações estão ao nível de qualquer outra competição e as equipas de 3×3 estão tanto ou mais profissionalizadas que as de 5×5. Em alguns países, nomeadamente na Ásia, já há mais equipas e jogadores de 3×3 do que de 5×5. Isso é perfeitamente compreensível face aos tempos de hoje, ou seja, o 3×3 proporciona comparativamente melhores condições económicas (principalmente aos jogadores “medianos”), menos compromisso (pois jogam por inscrição ou convite, quando lhes apetece, sem estarem “obrigados” a uma época de 10 ou 11 meses), melhor qualidade de vida (podem viajar pelo mundo e, se forem bons, ainda recebem cachet por isso).

Para a história ficam as primeiras medalhas entregues ao basquetebol 3×3, nos últimos Jogos Olímpicos, Tóquio 2020, disputados em agosto de 2021. Na competição feminina, os Estados Unidos venceram a Rússia. Na masculina também a prata ficou para a Rússia, mas quem levou o ouro para casa foi a Letónia.

No fundo, a pior atitude é daqueles que pensam que o 3×3 é uma ameaça ao “seu” 5×5. Porque, de facto, são variantes que se podem complementar perfeitamente. Era eu um jovem jogador e as marcas de refrigerantes e de material desportivo promoviam os primeiros torneios de 3×3 no país, inclusivamente com apuramentos para torneios internacionais. Anos mais tarde, pela mão da Federação de Basquetebol, o 3×3 disseminou-se pelas escolas de uma forma incrível. Contudo, a década passada foi de algum marasmo. Por um lado, no verão os recursos são naturalmente canalizados para a preparação das seleções nacionais. Por outro, na escola subsiste alguma atividade, ainda que longe do impacto e dimensão de outros tempos.

Bem a propósito, Lisboa vai receber o FIBA 3×3 U17 Europe Cup, uma espécie de campeonato da europa de seleções jovens, nos próximos dias 17, 18 e 19 de setembro. Simultaneamente, vai acontecer uma etapa do circuito nacional de 3×3. É uma oportunidade para ver de perto o “circo” que caracteriza um evento desta natureza e, principalmente, para deixarmos definitivamente de lado os preconceitos desta fantástica variante da nossa modalidade.